domingo, 19 de agosto de 2007
Para matar um grande amor
Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos.
Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.
Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.
Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.
Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...
*Jamil Snege nasceu em Curitiba, Paraná, onde sempre residiu. Escritor, publicitário, formado em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná
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9 comentários:
Sem dúvida, o adeus de «Casablanca» é o melhor de toda a história do Cinema!
Dark kiss.
PERFEITO!
Definitivo...
Nunca vi um texto tão completo ao se falar do "adeus" e da necessidade dele.
É difícil dizê-lo... mas quanto mais tarde for dito maior é a dor causada e sofrida.
Falta-me coragem...
Parabéns pela portagem!
Abraços.
.
eu diria que é algo a se pensar...
se tomarmos o amor verdadeiro como algo destinado ao adeus... pra que amar, então?
se não amamos, nos poupamos de sofrimento, solidão, gastrite [rs...]
prefiro crer que o amor verdadeiro é aquele que dura, luta, vence e permanece.
abraço
.
SAM, se me permite...
Entendo o que Vinícius quis dizer.
Mas não acredito em nada eterno.
Claro que não começamos um relacionamento já pensando no "adeus". Mas também não podemos manter um amor forçado, acomodado, lutando (em vão) para ser "eterno".
Para começar um novo amor é necessário duas pessoas entrarem em acordo. Mas para terminar basta um não querer - o fim é unilateral. Qdo isso acontece o outro (que ainda quer) fica lutando "em vão".
Acredito, sim, no amor "Eterno enquanto dure" de Vinícius de Moraes.
Concordo com você amigo, mas a complexidade deste tema, a subjetividade ..implica em tantas formas! Veja, você citou uma das...mas suponha agora que duas pessoas se amem, mas de uma forma tão violenta, doente e agressiva que maltrata tanto, tanto e que uma das pessoas tenha que ter a lucidez de dar um fim, até mesmo por sobrevivência. E outra, acho que hoje em dia não são poucas as pessoas que começam um “ relacionamento” já sabendo de um adeus. Acho também que o amor pode nascer e acabar de forma unilateral, nem sempre nasce de comum acordo e acaba de forma unilateral. E há os privilegiados, que nascem e acabam de comum acordo. Eterno enquanto durem para os que amam com uma intensidade muito forte ou o oposto. Eterno dura para os que conseguem viver o amor em um sentido mais amplo, tais como, companheirismo, amizade, respeito e uma série de sentimentos maiores até que o amor relação homem- mulher. Amor que sobrepõe a sentimentos mesquinhos , pequenos e de interesses e objetivos transitórios.
Vá entender...amores nascem, abortam, adoecem, morrem, e uns sobrevivem milagrosamente a tudo....eternizam-se sempre, pois o amor é eterno.
Beijo terno
Concordo, amigo Klatuu.
Dark kiss!
Que seja assim pra voce, Vinicius!
Beijo
Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele.
Sofri o amor até extinguir-me por ele. E o que jaz agora é uma cama fria... Foi-se o Menina do Rio.
Encontras-me em: Recanto da Alma
http://recantodaalma.blogspot.com
Beijos serenos e obrigada por tuas lindas palavras. Energiaem abundância.
Melhoras pra tua filha. A minha tb anda com uns probleminhas de gastrite (efeito coca cola), mas estamos tratando
Cuida-te
Até que enfimmmmmmmmmmm consegui entrar aqui... esse blog é tão "luxento"...que ele me bloqueia...só pq sou um simples e humilde GIGA e FOTOLOG! hahaha...
Nossa amiga, eu ia fazer um comentário sobre esse texto, mas...desisti! O "bicho" tá pegando aqui... tantos "concordo" e "não concordo"....
Eu vou ficar no alto do muro e simplesmente, vou me retirando quietinha, mas...levando esse texto comigo, pra não perder o HÁBITO, né fia? hahahaha....
Bejus!
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